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segunda-feira, 4 de maio de 2009

A História Secreta da Raça Humana

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A História Secreta da Raça Humana

 

Michael A. Cremo

Richard L. Thompson

 

EDITORA ALEPH

 

2004


Prefácio

 

Por Graham Hancock

Autor de O Mistério de Marte e Digitais dos Deuses

 

É para mim um grande prazer e uma honra apresentar esta versão condensada de Arqueologia proibida. Permitam-me dizer, desde logo, que acredito que este livro é um marco dentre as realizações intelectuais do fim do século XX. Os estudiosos mais conservadores vão demorar um pouco mais, provavelmente muitos anos, para aceitar as revelações que ele contém. Contudo, Michael Cremo e Richard Thompson deixaram suas revelações à mostra e agora o relógio não pode voltar atrás. Mais cedo ou mais tarde, gostemos disso ou não, nossa espécie terá de se ajustar aos fatos documentados de maneira tão impressionante nas páginas que se seguem, e esses fatos são espantosos.

A tese central de Cremo e Thompson é que, infelizmente, o modelo da pré-história humana, cuidadosamente elaborado por estudiosos nos últimos dois séculos, está completamente errado. Além disso, os autores não estão propondo que esse modelo seja corrigido com pequenos ajustes e retoques. É preciso que o modelo existente seja jogado pela janela e que recomecemos com a mente aberta, sem quaisquer posições preconcebidas.

Esta é uma posição próxima da minha; com efeito, constitui a base de meus livros Digitais dos Deuses e O Mistério de Marte. Neles, porém, meu foco se deteve exclusivamente nos últimos vinte mil anos e na possibilidade de que uma civilização global avançada possa ter florescido há mais de doze mil anos, tendo sido eliminada e esquecida no grande cataclismo que pôs fim à última Era Glacial.

Em A história Secreta da Raça Humana, Cremo e Thompson vão muito além, recuando o horizonte de nossa amnésia não apenas doze ou vinte mil anos, mas milhões de anos no passado, mostrando que quase tudo que nos ensinaram sobre as origens e a evolução de nossa espécie se apóia na frágil base da opinião acadêmica e em uma amostra altamente seletiva de resultados de pesquisas. Posteriormente, os dois autores revêem os fatos apresentando todos os outros resultados de pesquisas que foram retirados dos registros nos dois últimos séculos, não porque havia neles algo de errado ou falso, mas apenas porque não se encaixavam na opinião acadêmica da época.

Dentre as descobertas anômalas e deslocadas relatadas por Cremo e Thompson neste livro, estão evidências convincentes de que seres humanos anatomicamente modernos podem ter estado presentes na Terra não apenas há cem mil anos ou menos (a visão ortodoxa), mas há milhões de anos, e que objetos metálicos de desenho avançado podem ter sido usados em períodos igualmente antigos. Além disso, embora já tenham sido feitas declarações sensacionais sobre artefatos fora de lugar, antes elas nunca receberam o apoio de documentação tão cabal e plenamente convincente como a que apresentam Cremo e Thompson.

Em última análise, é a meticulosa erudição dos autores e o peso acumulado dos fatos apresentados aqui que nos convence. O livro está, creio, em harmonia com o atual humor do público como um todo, que não aceita mais, sem questionar, os pronunciamentos das autoridades estabelecidas, e está disposto a ouvir, com a mente aberta, os "hereges" que apresentarem suas causas de maneira razoável e racional.

Nunca antes a hipótese de reavaliação completa da história da humanidade foi defendida com maior veemência do que a que se apresenta nestas páginas.

Graham Hancock

Devon, Inglaterra

Janeiro de 1998

 

 

 

Nota ao Leitor

 

A edição integral de Arqueologia proibida tem 952 páginas, representando, assim, um desafio para muitos leitores. Por isso, Richard L. Thompson e eu decidimos apresentar A História Secreta da Raça Humana - uma versão mais curta, mais inteligível e acessível de Arqueologia proibida.

Este livro contém, no entanto, quase todos os casos discutidos em Arqueologia proibida. Faltam-lhe as citações no texto e as discussões detalhadas dos aspectos geológicos e anatômicos de muitos dos casos. Por exemplo, aqui, nós podemos apenas afirmar que determinado sítio arqueológico é tido como sendo do Plioceno Superior. Em Arqueologia proibida, apresentamos uma discussão detalhada da razão para isso, bem como muitas referências a relatórios geológicos técnicos do passado e do presente.

 

Michael A. Cremo

Pacific Beach, Califórnia

       26 de março de 1994

 

 

Introdução e Agradecimentos

 

Em 1979, pesquisadores do sítio de Laetoli, Tanzânia, na África oriental, descobriram pegadas em depósitos de cinzas vulcânicas com mais de 3,6 milhões de anos. Mary Leakey e outros disseram que as impressões não se distinguiam daquelas deixadas por seres humanos modernos. Para esses cientistas, porém, isso significava apenas que os ancestrais humanos de 3,6 milhões de anos atrás tinham pés marcantemente modernos.

Segundo outros estudiosos, como o antropólogo R. H. Tuttle, da Universidade de Chicago, ossos fósseis dos pés de australopitecos conhecidos de 3,6 milhões de anos atrás mostram que eles tinham pés nitidamente simiescos. Logo, não eram compatíveis com as pegadas de Laetoli. Em um artigo publicado na edição de março de 1990 da Natural History, Tuttle confessou que "estamos diante de um mistério".

Portanto, parece lícito considerar uma possibilidade que nem Tuttle nem Leakey mencionaram - a de que criaturas com corpos humanos anatomicamente modernos, coerentes com seus pés humanos anatomicamente modernos, tenham existido há 3,6 milhões de anos na África oriental. Talvez tenham coexistido com criaturas mais próximas do macaco. Por mais intrigante que seja essa possibilidade arqueológica, as atuais idéias sobre a evolução humana vetam-na.

Porém, entre 1984 e 1992, Richard Thompson e eu, com a ajuda de nosso pesquisador Stephen Bernath, reunimos um amplo conjunto de evidências que questionam as atuais teorias da evolução humana. Algumas dessas evidências, como as pegadas de Laetoli, são bem recentes. Mas a maioria delas foi relatada por cientistas no século XIX e no início do século XX.

Mesmo sem ver esse conjunto mais antigo de evidências, alguns vão presumir que deve haver algo de errado com elas - que os cientistas devem tê-las descartado há muito tempo por um bom motivo. Richard e eu analisamos a fundo essa possibilidade. Concluímos, no entanto, que a qualidade dessas evidências controvertidas não é nem melhor, nem pior do que as evidências supostamente incontroversas geralmente citadas a favor das atuais correntes sobre a evolução humana.

Na Parte 1 de A História Secreta da Raça Humana, analisamos de perto a grande quantidade de evidências controvertidas que contrariam as atuais idéias sobre a evolução humana. Contamos em detalhes de que modo essas evidências foram sistematicamente suprimidas, ignoradas ou esquecidas, muito embora equivalham (qualitativa e quantitativamente) às evidências favoráveis às posições aceitas atualmente sobre as origens humanas. Quando falamos em supressão de evidências, não estamos nos referindo a cientistas conspiradores executando um plano diabólico para enganar o público. Na verdade, estamos falando de um processo social contínuo de filtragem de conhecimentos que parece bastante inócuo, mas tem um efeito cumulativo importante. Certas categorias de evidência simplesmente desaparecem de vista, algo que, em nossa opinião, não é justificável.

Esse padrão de supressão de dados tem estado ativo há muito tempo. Em 1880, J. D. Whitney, funcionário do Departamento de Geologia da Califórnia, publicou uma longa análise das avançadas ferramentas de pedra encontradas nas minas de ouro californianas. Os implementos, incluindo pontas de lanças, almofarizes e pilões de pedra, foram achados no fundo de poços de minas sob espessas camadas incólumes de lava, em formações cujas idades variavam entre, nove e mais de 55 milhões de anos. W. H. Holmes, da Smithsonian Institution, um dos mais acerbos críticos das descobertas na Califórnia, escreveu: "Se ao menos o professor Whitney tivesse levado em conta o estudo da evolução humana tal como ela é entendida hoje, teria hesitado antes de anunciar as conclusões que formulou (a de que os humanos existiram em épocas muito antigas na América do Norte), apesar do importante conjunto de testemunhos com que se defrontou". Em outras palavras, se os fatos não batem com a teoria preferida, então esses fatos, mesmo uma série importante deles, devem ser descartados.

Isso vem ao encontro do que, em essência, estamos tentando demonstrar neste livro, ou seja, que há, na comunidade científica, um filtro do conhecimento que impede a divulgação de evidências malvistas. Esse processo de filtragem existe há mais de um século, e continua até os dias de hoje.

Além dessa filtragem do conhecimento, parece ainda que há casos de eliminação direta.

No início da década de 1950, Thomas E. Lee, do Museu Nacional do Canadá, descobriu ferramentas avançadas de pedra nos depósitos glaciais de Sheguiandah, na ilha Manitoulin, ao norte do lago Huron. Segundo John Sanford, geólogo da Wayne State University, as ferramentas mais antigas encontradas em Sheguiandah tinham pelo menos 65 mil anos, talvez até 125 mil anos. Para aqueles que se pautavam na posição convencional sobre a pré-história norte-americana, tais valores eram inaceitáveis. Supõe-se que os humanos pisaram pela primeira vez na América do Norte há cerca de doze mil anos, vindos da Sibéria.

Thomas E. Lee reclamou: "O descobridor do sítio (Lee) foi afastado de seu cargo como funcionário público, ficando um longo tempo desempregado; canais de publicação foram cortados; a evidência foi interpretada de maneira equivocada por diversos autores de renome [...]; toneladas de artefatos desapareceram em caixotes de armazenamento no Museu Nacional do Canadá; por ter se recusado a demitir o descobridor, o diretor do Museu Nacional, que tinha proposto uma monografia sobre o sítio, também foi despedido e banido; instâncias oficiais de prestígio e poder se empenharam em controlar apenas seis espécimes de Sheguiandah que não tinham sido apreendidas, e o sítio foi transformado em uma estância turística [...] Sheguiandah teria feito com que os poderosos admitissem, envergonhados, que não conheciam tudo. Teria obrigado os estudiosos a reescrever quase todos os livros que existem sobre o assunto. Precisava ser eliminado. Foi eliminado".

Na Parte 2, analisamos o conjunto de evidências aceitas e geralmente utilizadas para sustentar as idéias - hoje dominantes - sobre a evolução humana. Examinamos especialmente o status do australopiteco. A maioria dos antropólogos entende que o australopiteco era um ancestral do homem com cabeça simiesca, corpo semelhante ao humano, uma postura e andadura bípede, humanóide. Mas outros pesquisadores defendem de modo convincente uma posição completamente diferente, afirmando que os australopitecos e similares eram bastante simiescos, criaturas que viviam parte do tempo em árvores e que não tinham conexão direta com a linhagem evolutiva humana.

Também na Parte 2, consideramos a possível coexistência de hominídeos primitivos e humanos anatomicamente modernos, não só no passado distante como no presente. No século passado, os cientistas acumularam evidências sugerindo que criaturas humanóides, semelhantes ao gigantopiteco, ao australopiteco, ao Homo erectus e ao Neandertal estão vivendo em várias regiões selvagens do planeta. Na América do Norte, essas criaturas são conhecidas como Sasquatch. Na Ásia central, são chamadas almas. Na África, China, Sudeste Asiático e Américas Central e do Sul, são conhecidas por outros nomes. Alguns pesquisadores usam a expressão genérica "homens selvagens" para incluir todos eles. Cientistas e médicos têm relatado avistamentos de homens selvagens vivos e mortos, bem como suas pegadas. Eles também catalogaram milhares de relatos de pessoas comuns que viram esses homens selvagens, além de descrições semelhantes em registros históricos.

Alguns podem questionar o motivo pelo qual fizemos um livro como A história secreta da raça humana, sugerindo que teríamos um motivo subjacente. Sim, há um motivo subjacente.

Richard Thompson e eu somos membros do Instituto Bhaktivedanta, uma divisão da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna que estuda a relação entre a ciência moderna e a cosmovisão expressa na literatura védica da Índia. Da literatura védica extraímos a idéia de que a raça humana é muito antiga. Com o propósito de realizar pesquisas sistemáticas sobre a literatura científica disponível acerca da antiguidade do Homem, expressamos a idéia védica na forma de uma teoria: a de que diversos seres humanóides e simiescos têm coexistido há longo tempo.

O fato de nossa posição teórica ter sido extraída da literatura védica não deve desqualificá-Ia. Uma teoria pode ser escolhida dentre diversas fontes ­uma inspiração pessoal, teorias anteriores, a sugestão de um amigo, um filme, e assim por diante. O que realmente importa não é a fonte da teoria, mas sua capacidade de explicar as observações.

Em função de limitações de espaço, não conseguimos desenvolver neste volume nossas idéias para uma alternativa às atuais teorias sobre as origens humanas. Portanto, estamos planejando um segundo volume relacionando os resultados de nossas extensas pesquisas nessa área em fontes védicas.

Gostaria agora de falar um pouco sobre minha parceria com Richard Thompson. Richard tem formação científica; estudou matemática e publicou artigos e livros nas áreas de biologia matemática, monitoramento remoto por satélite, geologia e física. Minha formação não é científica. Desde 1977 tenho escrito e editado revistas e livros publicados pelo Bhaktivedanta Book Trust.

Em 1984, Richard pediu que seu assistente Stephen Bernath começasse a reunir material sobre as origens e a antiguidade do ser humano. Em 1986, Richard me pediu para organizar esse material na forma de livro.

Ao analisar o material que Stephen me forneceu, fiquei espantado com o pequeno número de relatos entre 1859, quando Darwin publicou A Origem das Espécies, e 1894, quando Dubois publicou seu relatório sobre o Homem de lava. Curioso, pedi a Stephen que conseguisse alguns livros de antropologia do fim do século XIX e início do XX. Nesses livros, inclusive em uma das primeiras edições de Homens fósseis, de Marcellin Boule, encontrei críticas bastante negativas a numerosos relatos do período em questão. Estudando as notas de rodapé, descobri que a maioria desses relatos, escritos por cientistas do século XX, descrevia ossos com incisões, ferramentas de pedra e restos de esqueletos anatomicamente modernos, encontrados em contextos geológicos inesperadamente antigos. Os relatos eram de boa qualidade e respondiam a diversas objeções possíveis. Isso também me estimulou a realizar uma pesquisa mais sistemática.

Vasculhar essas evidências literárias soterradas exigiu mais três anos. Stephen Bernath e eu obtivemos raras atas de conferências e revistas especializadas do mundo todo, e juntos traduzimos o material para o inglês. Redigir o manuscrito a partir do material coletado tomou outro par de anos. Durante todo o período de pesquisa e de redação, tive discussões quase diárias com Richard sobre a importância do material e a melhor maneira de apresentá-lo.

Stephen obteve boa parte do material apresentado no Capítulo 6 com Ron Calais, que gentilmente nos enviou muitas cópias reprográficas de relatos originais encontrados em seus arquivos. Virginia Steen McIntire foi muito gentil e nos forneceu sua correspondência sobre a datação do sítio de Hueyatlaco, México. Também tivemos reuniões úteis sobre ferramentas de pedra com Ruth D. Simpson, do Museu do Condado de San Bernardino, e com Thomas A. Deméré, do Museu de História Natural de San Diego, sobre marcas de dentes de tubarão em ossos.

Este livro não teria sido concluído sem os diversos serviços prestados por Christopher Beetle, formado em ciência da computação pela Universidade Brown, que entrou para o Instituto Bhaktivedanta de San Diego em 1988.

As ilustrações da Figura 12.8 são obra de Miles Triplett, a quem agradecemos muito. Beverly Symes, David Smith, Sigalit Binyaminy, Susan Fritz, Bárbara Cantatore, Joseph Franklin e Michael Best também contribuíram para a produção deste livro.

Richard e eu gostaríamos de agradecer em especial aos curadores internacionais do Bhaktivedanta Book Trust, do passado e do presente, por seu generoso apoio à pesquisa, redação e publicação deste livro.

Finalmente, incentivamos os leitores a chamar nossa atenção para quaisquer evidências adicionais que possam ser de nosso interesse; especialmente para inclusão em futuras edições deste livro. A correspondência pode ser endereçada a nós na Govardhan Hill Publishing.

 

  

PARTE I

 

1. A Canção do Leão Vermelho: Darwin e a Evolução Humana

 

Em certa noite de 1871, uma associação de cultos cavalheiros britânicos, os Leões Vermelhos, reúne-se em Edinburgh, Escócia, para um alegre banquete regado a canções e discursos bem-humorados. Lorde Neaves, notório por seus chistes literários, levanta-se perante os Leões reunidos e entoa doze estrofes por ele compostas sobre "A origem das espécies a Ia Darwin". Entre elas:

 

Um Símio de polegar flexível e grande cérebro

Conseguira o dom da loquacidade lograr,

Enquanto o Senhor da Criação estabelecia seu reino,

O que Ninguém pode Negar!

 

Seus ouvintes respondem, como é costume entre os Leões Vermelhos, rugindo gentilmente e abanando as abas de suas casacas.

Apenas doze anos passados da publicação, por Charles Darwin, em 1859, de A origem das Espécies, um número cada vez maior de cientistas e outros eruditos achava impossível, de fato ridículo, supor serem os seres humanos, nada mais nada menos, que descendentes modificados de uma linhagem ancestral de criaturas simiescas. No próprio A origem das Espécies, Darwin tecia somente breves comentários sobre a questão dos primórdios do homem, afirmando, já nas páginas finais, que "nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história". Todavia, a despeito da cautela de Darwin, era óbvio que ele não via na humanidade uma exceção à sua teoria de que uma espécie evolui de outra.

 

Darwin Fala

 

Só em 1871 é que Darwin aparece com um livro (A origem do homem) expressando seus pormenorizados pontos de vista sobre a evolução humana. Para explicar sua demora, Darwin escreveu: "Durante muitos anos, coligi anotações sobre a origem ou descendência do homem, sem intenção alguma de publicar algo sobre o tema, senão que, pelo contrário, com a determinação de nada publicar, por achar que, assim fazendo, estaria apenas contribuindo para os preconceitos contra minhas opiniões. Pareceu-me suficiente indicar, na primeira edição de minha A origem das Espécies, que, com esta obra, ‘nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história'; e isso implica que o homem deve ser incluído entre os demais seres orgânicos em qualquer conclusão genérica que diga respeito à maneira como apareceu na Terra".

Em A Origem do Homem, Darwin era explícito ao negar qualquer status especial para a espécie humana. "Aprendemos, portanto", dizia ele, "que o homem descende de um quadrúpede peludo e com cauda, provavelmente de hábitos arbóreos e habitante do Velho Mundo." Era uma declaração ousada, não obstante carecesse do tipo mais convincente de prova - fósseis de espécies transicionais entre os antigos símios e os humanos modernos.

Afora os dois mal datados crânios de Neandertal da Alemanha e de Gibraltar, e algumas outras descobertas de morfologia moderna pouco divulgadas, não havia descobertas de restos fósseis hominídeos. Esse fato logo tornou-se munição para aqueles que se revoltaram com a sugestão de Darwin de que os humanos tinham ancestrais simiescos. Onde, perguntavam eles, estavam os fósseis para provar tal teoria?

 

Hoje, contudo, quase sem exceção, os paleantropólogos modernos acreditam ter satisfeito as expectativas de Darwin mediante descobertas positivas de fósseis dos ancestrais do homem na África, na Ásia e em outras regiões.

 

Aparecimento dos Hominídeos

 

Neste livro, adotamos o sistema moderno de eras geológicas (Tabela 1.1). Usamo-lo como fonte fixa de referência para nosso estudo da história dos antigos humanos e quase humanos. Assim o fizemos por questão de conveniência. Reconhecemos, no entanto, que nossas descobertas exigiriam uma séria reavaliação da escala de tempo geológico.

Segundo os pontos de vista modernos, os primeiros seres simiescos apareceram no Oligoceno, que começou há cerca de 38 milhões de anos. Os primeiros símios considerados antecessores dos humanos apareceram no Mioceno, que se estende de 5 a 25 milhões de anos atrás. Entre eles, está o Dryopithecus.

Depois veio o Plioceno, durante o qual diz-se terem aparecido no registro fóssil os primeiros hominídeos, primatas de andadura ereta e semelhantes a humanos. O hominídeo mais antigo que se conhece é o Australopithecus, o símio meridional, remontando a quatro milhões de anos, no Plioceno.

Esse quase humano, dizem os cientistas, tinha entre 1,20 e 1,50 metro de altura, e uma capacidade craniana de 300 e 600 cc. Do pescoço para baixo, diz-se que o Australopithecus era muito parecido com os humanos modernos, ao passo que a cabeça revelava características tanto simiescas quanto humanas.

Pensa-se que uma ramificação do Australopithecus tenha dado origem ao Homo habilis por volta de dois milhões de anos atrás, no princípio do Pleistoceno. O Homo habilis é muito parecido com o Australopithecus, com exceção de sua capacidade craniana, que, segundo consta, era maior, entre 600 e 750 cc.

Considera-se que o Homo habilis deu origem ao Homo erectus (a espécie em que se incluem o Homem de Java e o Homem de Beijing) cerca de 1,5 milhão de anos atrás. O Homo erectus, segundo consta, tinha entre 1,50 e 1,80 metro de altura, e sua capacidade craniana variava entre 700 e 1.300 cc. Muitos paleantropólogos acreditam hoje que, do pescoço para baixo, o Homo erectus era, tanto quanto o Australopithecus e o Homo habilis, quase igual aos humanos modernos. A testa, contudo, inclinava-se por trás de maciças arcadas supraorbitais, os maxilares e os dentes eram grandes, e o maxilar inferior não tinha queixo. Acredita-se que o Homo erectus viveu na África, na Ásia e na Europa até cerca de duzentos mil anos atrás.

Os paleantropólogos acreditam que, do ponto de vista anatômico, os humanos modernos (Homo sapiens sapiens) formaram-se aos poucos a partir do Homo erectus. Por volta de trezentos ou quatrocentos mil anos atrás, diz-­se terem aparecido os primeiros Homo sapiens primitivos, ou Homo sapiens arcaicos. Na descrição feita deles, a capacidade craniana é quase tão grande quanto a dos humanos modernos, no entanto, ainda manifestam, em menor grau, algumas das características do Homo erectus, tais como o crânio espesso, a testa recuada e grandes arcadas supraorbitais. Entre os exemplos dessa categoria, temos as descobertas oriundas de Swanscombe, na Inglaterra, de Steinheim, na Alemanha e de Fontechevade e Arago, na França. Como esses crânios também apresentam, até certo ponto, características de Neandertal, também são classificados como tipos pré-Neandertal. Hoje, muitas autoridades postulam que tanto os humanos anatomicamente modernos quanto os neandertais europeus ocidentais evoluíram de hominídeos dos tipos pré-­Neandertal ou Homo sapiens primitivo.

 

 

No início do século XX, alguns cientistas defendiam o ponto de vista de que os neandertais do último período glacial, conhecidos como os neandertais europeus ocidentais clássicos, foram os ancestrais diretos dos seres humanos modernos. Eles tinham cérebros maiores do que os do Homo sapiens sapiens. Seus rostos e maxilares eram muito maiores, e suas testas ficavam mais abaixo, inclinando-se por trás de grandes arcadas supraorbitais. Encontram-se vestígios de Neandertal em depósitos do Pleistoceno, com idades variando entre 30 e 150 mil anos. No entanto, a descoberta de Homo sapiens primitivos em depósitos com muito mais de 150 mil anos tirou, de uma vez por todas, os neandertais europeus ocidentais clássicos da linha direta de descendência desde o Homo erectus até os humanos modernos.

O tipo de humanos conhecidos como Cro-Magnon apareceu na Europa há aproximadamente trinta mil anos, e eles eram anatomicamente moder­nos. Os cientistas costumavam dizer que o Homo sapiens sapiens anatomicamente moderno apareceu pela primeira vez por volta de quarenta mil anos atrás, mas hoje muitas autoridades, levando em consideração desco­bertas feitas na África do Sul e em outras regiões, dizem que eles apareceram cem mil ou mais anos atrás.

A capacidade craniana dos humanos modernos varia de 1.000 a 2.000 cc, a média sendo em torno de 1.350 cc. Como logo se pode observar hoje entre os humanos modernos, não existe correlação entre o tamanho do cérebro e a inteligência. Existem pessoas inteligentíssimas com cérebros de 1.000 cc e débeis mentais com cérebros de 2.000 cc.

Exatamente onde, quando ou como o Australopithecus deu origem ao Homo habilis, ou o Homo habilis deu origem ao Homo erectus, ou o Homo erectus deu origem aos humanos modernos, não é explicado em descrições atuais das origens humanas. Entretanto, a maioria dos paleantropólogos con­corda que apenas humanos anatomicamente modernos vieram para o Novo Mundo. Diz-se que as etapas anteriores da evolução, do Australopithecus em diante, deram-se no Velho Mundo. A primeira chegada de seres humanos ao Novo Mundo, segundo consta, data de cerca de doze mil anos atrás, sendo que alguns cientistas preferem determinar uma data de 25 mil anos, equivalente ao Pleistoceno Superior.

 

 

Mesmo hoje, são muitas as lacunas no suposto registro da descendência humana. Por exemplo: há uma ausência quase total de fósseis que vinculem os símios do Mioceno, tais como o Dryopithecus, aos ancestrais, atribuídos ao Plioceno, de símios e humanos modernos, especialmente dentro do lapso entre quatro e oito milhões de anos atrás.

Talvez seja verdade que algum dia serão encontrados os fósseis para preencherem essas lacunas. Todavia, e isto é extremamente importante, não há motivo para supor que os fósseis ainda por aparecer serão sustentá­culos da teoria da evolução. E se, por exemplo, os fósseis de humanos anatomicamente modernos aparecessem em estratos mais antigos que aque­les em que os Dryopithecus foram encontrados? Mesmo que se constatasse que os humanos anatomicamente modernos viveram milhões de anos atrás, quatro milhões de anos após o desaparecimento dos Dryopithecus, no Mioceno Superior, isso seria suficiente para desbancar os relatos atuais so­bre a origem da humanidade.

De fato, tal evidência já foi encontrada, mas tem, desde então, sido suprimida ou convenientemente esquecida. Grande parte dessa evidência veio à tona nas décadas imediatamente posteriores à publicação de A Ori­gem das Espécies, de Darwin, antes do que não haviam sido feitas desco­bertas notáveis, excetuando-se o Homem de Neandertal. Nos primeiros anos do darwinismo, quando não existia uma história bem definida da descen­dência humana que precisasse ser defendida, os cientistas profissionais fi­zeram e registraram muitas descobertas que hoje nem sequer seriam aceitas nas páginas de qualquer jornal mais respeitável no meio acadêmico do que o National Enquirer.

A maioria desses fósseis e artefatos foi desenterrada antes da desco­berta, por Eugene Dubois, do Homem de lava, o primeiro hominídeo proto-­humano entre o Dryopithecus e os humanos modernos. O Homem de lava foi encontrado em depósitos do Pleistoceno Médio, aos quais em geral se atribui oitocentos mil anos de idade. Essa descoberta tornou-se um marco. Daí por diante, os cientistas não esperariam encontrar fósseis ou artefatos de humanos anatomicamente modernos em depósitos de idade igual ou maior. Se o fizeram (ou alguém mais prudente), concluíram que isso era impossível e arranjaram alguma forma de pôr a descoberta em descrédito, taxando-a de erro, ilusão ou embuste. Antes do Homem de lava, contudo, bem conceituados cientistas do século XIX encontraram uma série de exem­plos de restos esqueletais de humanos anatomicamente modernos em es­tratos antiqüíssimos. E também encontraram um grande número de ferramentas de pedra de diversos tipos, bem como ossos de animais com sinais de manuseio humano.

 

Alguns Princípios de Epistemologia

 

Antes de começarmos nosso exame das provas paleantropológicas rejei­tadas e aceitas, esboçaremos algumas regras epistemológicas que temos pro­curado observar. Segundo definição do Webster's new world dictionary, epistemologia é "o estudo ou teoria da origem, natureza, métodos e limites do conhecimento". Ao nos ocuparmos do estudo de evidências científicas, é importante termos em mente a natureza, os métodos e os limites do conheci­mento, caso contrário, tendemos a cair em ilusão.

A evidência paleantropológica tem certas limitações básicas para as quais devemos chamar a atenção. Em primeiro lugar, as observações que se enqua­dram na categoria de fatos paleantropológicos tendem a envolver descober­tas raras, as quais não podem ser duplicadas à vontade. Por exemplo: alguns cientistas dessa área conquistaram grande reputação com base em poucas descobertas famosas, ao passo que outros, a grande maioria, têm passado suas carreiras inteiras sem fazer uma só descoberta significativa.

Em segundo lugar, uma vez feita uma descoberta, destroem-se elemen­tos essenciais da evidência, e o conhecimento desses elementos depende exclusivamente do testemunho dos descobridores. Um dos aspectos mais importantes de um fóssil é, por exemplo, sua posição estratigráfica. No en­tanto, uma vez que o fóssil tenha sido extraído da terra, destrói-se a prova direta indicativa de sua posição, e passamos a depender apenas do testemu­nho do escavador para sabermos onde ele ou ela o encontrou. Evidentemente, será possível argumentar que as características químicas e outras do fóssil podem indicar o seu lugar de origem. Isso se aplica a alguns casos, mas não a outros. E ao fazermos tais julgamentos, temos também de depender de rela­tórios sobre as propriedades químicas e demais propriedades físicas dos es­tratos em que se alega ter encontrado o fóssil.

Pessoas responsáveis por descobertas importantes não conseguem, às vezes, reencontrar os locais dessas descobertas. Após alguns anos, os locais são quase que inevitavelmente destruídos, talvez pela erosão, pela escavação paleantropológica completa ou pelo desenvolvimento comer­cial (o qual envolve exploração de pedreiras, construção civil e assim por diante). Mesmo escavações modernas, mediante as quais se consegue um registro meticuloso de detalhes, destroem a própria evidência registrada, deixando-nos com nada além do testemunho escrito para corroborar muitas declarações essenciais. E muitas descobertas importantes, mesmo na atualidade, são acompanhadas de registros escassíssimos de detalhes importantes.

Desse modo, uma pessoa desejosa de conferir registros paleantropológicos achará dificílimo ter acesso aos fatos em si, mesmo que tenha meios para viajar até o local de uma descoberta. E, decerto, limitações de tempo e dinheiro impossibilitam-nos de examinar pessoalmente mais do que uma pequena porcentagem da totalidade dos sítios paleantropológicos importantes.

 

 

Um terceiro problema é que raramente (ou nunca) os fatos de palean­tropologia são simples. Digamos que um cientista declare que os fósseis pro­jetavam-se nitidamente de uma certa camada do Pleistoceno Inferior. Mas essa declaração aparentemente simples poderá depender de muitas observa­ções e argumentos, envolvendo falhas geológicas, a possibilidade de alguma queda repentina, a presença ou ausência de uma camada de alúvio, a presen­ça de um sulco reenchido e assim por diante. Ao consultarmos o testemunho de outra pessoa presente no sítio, poderemos descobrir que ela trata de mui­tos detalhes importantes não mencionados pela primeira testemunha.

Observadores diferentes às vezes se contradizem, uma vez que seus sen­tidos e memórias são imperfeitos. Nesse caso, um observador em um deter­minado sítio poderá ver certas coisas, mas deixar de ver outras importantes. Algumas delas poderiam ser vistas por outros observadores, mas isso poderia acabar se tornando impossível pelo fato de o sítio tornar-se inacessível.

Outro problema é a falsificação. Isso pode ocorrer em nível de fraude sistemática, como no caso de Piltdown. Como veremos, para uma aborda­gem em profundidade desse tipo de fraude, é necessário ter a capacidade de investigação de um super Sherlock Holmes, além de todos os recursos de um moderno laboratório forense. Infelizmente, sempre existem fortes motivos para fraudes deliberadas ou inconscientes, uma vez que a fama e a glória acenam para quem logra descobrir um ancestral humano.

A fraude também pode dar-se no nível da simples omissão do registro de observações que contrariem as conclusões desejadas por alguém. Como ve­remos no decorrer deste livro, houve casos de investigadores que observa­ram artefatos em certos estratos, mas que jamais registraram tais descobertas porque não acreditavam que os artefatos pudessem ter aquela idade. É muito difícil evitar isso, pois nossos sentidos são imperfeitos e, se nos deparamos com algo aparentemente impossível, é natural supormos estarmos equivo­cados. Na verdade, isso pode muito bem acontecer. Enganar omitindo observações importantes nada mais é que uma limitação da natureza humana que, Infelizmente, pode ter um impacto nocivo sobre o processo empírico.

Os empecilhos dos fatos paleantropológicos não se limitam a escava­ções de objetos. Também encontramos empecilhos semelhantes em moder­nos estudos de datação química ou radiométrica. Por exemplo: uma data estabelecida com carbono 14 pareceria envolver um procedimento confiável que produz um número final - a idade de um objeto. Porém, estudos con­cretos de datação costumam exigir considerações complexas relativas à identidade das amostras, além de seu histórico e possível contaminação. Podem acarretar a rejeição de certos cálculos preliminares de datas e a aceitação de outros com base em complexos argumentos que raras vezes são publicados de forma explícita. Ademais, os fatos podem ser complexos, incompletos e bastante inacessíveis.

A conclusão a que chegamos a partir dessas limitações dos fatos palean­tropológicos é que, nesse campo de estudo, estamos sobremaneira limitados ao estudo comparativo dos relatórios. Embora realmente exista evidência concreta sob a forma de fósseis e artefatos em museus, a maior parte da evidência essencial que dá importância a esses objetos só existe sob a forma escrita.

Uma vez que a informação constante nos registros paleantropológicos tende a ser incompleta, e como até os mais simples fatos paleantropológi­cos tendem a envolver assuntos complexos e insolúveis, é difícil chegar a conclusões sólidas sobre a realidade nesse campo. Que podemos fazer, então? Sugerimos, como coisa importante que possamos fazer, comparar a qualidade de diferentes registros. Embora não tenhamos acesso aos fatos em si, podemos fazer um estudo direto de diferentes registros e compará-­los objetivamente.

 

Uma coletânea de relatórios ligados a certas descobertas pode ser ava­liada com base na inteireza da investigação registrada e na lógica e consis­tência dos argumentos apresentados. Pode-se considerar se foram ou não levantados e respondidos os diversos contra-argumentos céticos a uma de­terminada teoria. Uma vez que as observações registradas devem ser sem­pre aceitas com base em algum grau de fé, pode-se também averiguar a idoneidade dos observadores.

Nossa proposta é que, se dois conjuntos de relatórios parecerem igualmente confiáveis com base nesses critérios, deverão ser tratados também igualmente. Ambos os conjuntos poderiam ser aceitos, ambos poderiam ser rejeitados, ou poderia-se considerar que ambos têm status incerto. Seria errado, contudo, aceitar um conjunto de relatórios e, ao mesmo tempo, rejeitar o outro, e, em especial, seria errado aceitar um conjunto como prova de determinada teoria e, ao mesmo tempo, suprimir o outro, tornando-o, desse modo, inacessível a futuros estudantes.

Optamos por aplicar essa abordagem a dois conjuntos específicos de relatórios. O primeiro conjunto consiste em registros de artefatos e restos esqueletais humanos anomalamente antigos, muitos dos quais foram desco­bertos em fms do século XIX e no começo do século XX. Esses registros são examinados na Parte 1 deste livro. O segundo conjunto consiste em registros de artefatos e restos esqueletais aceitos como evidência em apoio às atuais teorias da evolução humana. Esses registros variam em data desde o fim do século XIX até a década de 1980, e são examinados na Parte 2. Por causa das Interligações naturais entre as diferentes descobertas, algumas descobertas anômalas também são examinadas na Parte 2.

Nossa tese é que, a despeito dos diversos avanços feitos no campo da ciência paleantropológica durante o século XX, existe uma equivalência es­sencial em termos de qualidade entre esses dois conjuntos de relatórios. Por­tanto, sugerimos não ser apropriado aceitar um conjunto e rejeitar o outro. Isso traz sérias implicações para a teoria moderna da evolução humana. Se rejeitamos o primeiro conjunto de relatórios (as anomalias) e, em nome da consistência, também rejeitamos o segundo conjunto (evidência aceita atual­mente), então privamos a teoria da evolução humana de boa parte de seu fundamento observacional. Porém, se aceitamos o primeiro conjunto de re­latórios, devemos aceitar a existência de seres inteligentes, capazes de fazer ferramentas, em períodos geológicos tão remotos como o Mioceno, ou mes­mo o Eoceno. Se aceitamos a evidência esqueletal apresentada nesses relató­rios, devemos ir mais adiante e aceitar a existência de seres humanos anatomicamente modernos nesses períodos remotos. Isso não apenas con­tradiz a teoria moderna da evolução humana, como também lança sérias dú­vidas sobre toda a nossa visão da evolução da vida mamífera na era Cenozóica.

 

2. Ossos Incisos e Quebrados: A Aurora da Falácia

 

Os ossos de animais, cortados e quebrados intencionalmente, compreen­dem uma parte substancial da evidência da antiguidade humana. Passando a ser objeto de sérios estudos a partir de meados do século XIX, eles conti­nuam sendo submetidos a extensas pesquisas e análises ainda hoje.

Nas décadas que se seguiram à publicação de A origem das Espécies, de Darwin, muitos cientistas constataram que os ossos incisos e quebrados eram indicativos da presença humana no Plioceno, no Mioceno e em períodos anteriores. Segundo alguns antagonistas sugeriram, as marcas e rachaduras observadas nos ossos fósseis eram provocadas pela ação de carnívoros, tuba­rões ou pela própria pressão geológica. No entanto, aqueles que apoiavam as recentes descobertas apresentavam contra-argumentos impressionantes. Por exemplo: havia ocasiões em que encontravam ferramentas de pedra com os ossos incisos, e algumas experiências feitas com esses instrumentos produzi­ram marcas em ossos frescos exatamente iguais àquelas encontradas nos fós­seis. Os cientistas também se utilizaram de microscópios a fim de distinguir os cortes nos ossos fósseis daqueles que poderiam ser feitos por dentes de tubarões ou outros animais. Em muitos casos, as marcas localizavam-se em partes do osso apropriadas para operações de abate específicas.

Não obstante, o conjunto de provas científicas aceitas hoje exclui os regis­tros de ossos incisos e quebrados, indicativos da presença humana no Plioceno e em épocas anteriores. Tal exclusão não pode, contudo, ser justificada. A partir do conjunto incompleto de provas científicas levado em conta nos dias atuais, os cientistas concluíram que os humanos do tipo moderno só vieram a aparecer recentemente. Todavia, em vista da evidência apresentada neste capítulo, tudo leva a crer que eles estão enganando a si mesmos.

 

St. Prest, França

 

Em abril de 1863, Jules Desnoyers, do Museu Nacional Francês, esteve em St. Prest, noroeste da França, para recolher fósseis. Dos cascalhos areno­sos ele recuperou parte de uma tíbia de rinoceronte. Reparou que o osso apresentava uma série de ranhuras estreitas, algumas das quais, a seu ver, pareciam ter sido produzidas com faca afiada ou com lâmina de pederneira. Observou, também, pequenas marcas circulares que podiam muito bem ter sido feitas por um instrumento pontudo. Mais tarde, Desnoyers examinou coleções de fósseis de St. Prest nos museus de Chartres e na Escola de Mineralogia em Paris, e viu que traziam os mesmos tipos de marcas. Daí resolveu relatar suas descobertas à Academia Francesa de Ciências.

Certos cientistas modernos dizem que o sítio arqueológico de St. Prest pertence ao Plioceno Superior. Se Desnoyers concluiu corretamente que as marcas em muitos dos ossos haviam sido feitas por instrumentos de corte, então tudo levava a crer que seres humanos estiveram presentes na França durante aquela época. Poderia-se perguntar: "Que há de errado nisso?" Segun­do o que entendemos que seja, hoje, a paleantropologia, há algo muito errado. A presença, a essa época e na Europa, de seres que usavam ferramentas de pedra de forma sofisticada, pareceria quase impossível. Acredita-se que, ao fim do Plioceno, cerca de dois milhões de anos atrás, a espécie humana moderna ainda não havia surgido. Apenas na África deveria-se encontrar ancestrais hu­manos primitivos, os quais, por sua vez, limitavam-se ao Australopithecus e ao Homo habilis, este tido como o primeiro a ter capacidade de fabricar ferramen­tas. Segundo relatórios de outros cientistas, o sítio de St. Prest poderia ser de época mais recente que o Plioceno - talvez com tão pouco quanto 1,2 a 1,6 milhão de anos. Mas os ossos incisos eram anômalos mesmo assim.

Já no século XIX, as descobertas de Desnoyers dos ossos incisos de St. Prest provocavam controvérsias. Antagonistas argumentavam que as marcas tinham sido feitas pelas ferramentas dos operários que as haviam escavado. Desnoyers, porém, demonstrou que as marcas cortadas haviam ficado cober­tas com depósitos minerais tanto quanto as outras superfícies dos ossos fós­seis. Sir Charles Lyell, destacado geólogo britânico, sugeriu terem as marcas sido feitas por dentes de roedores, mas o pré-historiador francês Gabriel de Mortillet disse não ser possível que as marcas tivessem sido feitas por ani­mais. Ao contrário, segundo o parecer dele, haviam sido feitas por pedras afiadas atritando contra os ossos por pressão geológica. Ao que Desnoyers replicou: "Muitas das incisões desgastaram-se pela fricção pós-escavação, fricção esta resultante do transporte ou da movimentação dos ossos em meio à areia e aos cascalhos. As marcas daí resultantes são de aspecto essencialmente diferente do aspecto das marcas e estrias originais".

Afinal, quem estava certo, Desnoyers ou Mortillet? Certas autoridades acreditavam ser possível solucionar esse problema caso se pudesse demonstrar que os cascalhos de St. Prest continham ferramentas de pederneira que fossem comprovadamente de manufatura humana. Louis Bourgeois, um clé­rigo que também havia conquistado a reputação de distinto paleontólogo, explorou com bastante cuidado os estratos de St. Prest à procura de tais provas. Em sua paciente exploração, acabou encontrando uma série de pederneiras que acreditou serem ferramentas genuínas. Fez delas o tema de um relatório apresentado à Academia de Ciências em janeiro de 1867. Segundo disse o famoso antropólogo francês Armand de Quatrefages, entre as ferra­mentas havia raspadeiras, furadores e pontas de lança.

Nem esse testemunho satisfez Mortillet, segundo o qual as pederneiras descobertas por Bourgeois em St. Prest haviam sido lascadas pela pressão geológica. Parece, portanto, que, ao tentarmos responder a uma pergunta ­ ou seja, qual é a natureza das marcas talhadas nos ossos? -, nos deparamos com outra - a saber, como reconhecer a obra humana nas pederneiras e em outros objetos de pedra? Esta última pergunta será inteiramente examinada no próximo capítulo. Por ora, basta atentarmos para o fato de que, mesmo nos dias atuais, provocam consideráveis controvérsias os julgamentos quanto ao que venha a ser uma ferramenta de pedra. É, portanto, logicamente possí­vel encontrar razões para questionar a rejeição, por parte de Mortillet, das pederneiras encontradas por Bourgeois. Em 1910, o famoso paleontólogo norte-americano Henry Fairfield Osborn fez estas interessantes observações em relação à presença de ferramentas de pedra em St. Prest: "Os vestígios mais remotos do homem em/estratos dessa era foram os ossos incisos desco­bertos por Desnoyers em St. Prest, perto de Chartres, em 1863. Dúvidas quanto ao possível caráter artificial dessas incisões foram eliminadas pelas recentes explorações de Laville e Rutot, as quais resultaram na descoberta de peder­neiras eolíticas, confirmando plenamente as descobertas do Abade Bourgeois nesses depósitos em 1867".

 

 

De modo que, no que diz respeito às descobertas em St. Prest, fica bastan­te evidente o fato de estarmos lidando com problemas paleontológicos que não podemos resolver rápida ou facilmente. Decerto, não há razão suficiente para rejeitar categoricamente esses ossos como provas da presença humana no Plioceno. Isso poderia nos levar a querer saber o motivo pelo qual os fósseis de St. Prest, e outros como eles, quase nunca são mencionados em livros didá­ticos sobre a evolução humana, exceto em raros casos de breves notas de péde página, destinadas a ridicularizar e rejeitar tais descobertas. Acaso isso acon­tece realmente pelo fato de a evidência ser nitidamente inadmissível? Ou esta­rá, talvez, a omissão ou rejeição sumária mais relacionada ao fato de a potencial antiguidade dos objetos do Plioceno Superior contradizer em tão alto grau o registro convencional sobre a origem do homem?

A respeito desse tema, Armand de Quatrefages, membro da Academia Francesa de Ciências e professor do Museu de História Natural de Paris, es­creve em seu livro Hommes fossiles et hommes sauvages (1884): "As obje­ções feitas à existência de humanos no Plioceno e no Mioceno habitualmente parecem estar mais relacionadas a considerações de ordem teórica do que à observação direta" .

 

Um Exemplo Moderno: Old Crow River, Canadá

 

Antes de prosseguir apresentando mais exemplos de descobertas do sécu­lo XIX que desafiam as idéias modernas sobre as origens do homem, vamos examinar uma investigação mais recente de ossos modificados intencional­mente. Uma das questões mais controvertidas a confrontar a paleantropologia do Novo Mundo está em determinar a época em que os humanos surgiram na América do Norte. Segundo o ponto de vista convencional, bandos de caçadores-agricultores asiáticos atravessaram o estreito de Bering cerca de doze mil anos atrás. Algumas autoridades preferem estender a data para cerca de trinta mil anos atrás, ao passo que uma minoria em expansão registra a evidência da presença humana nas Américas em fases bem anteriores do Pleistoceno. Examinaremos esse assunto com mais detalhes em capítulos posteriores. Por ora, contudo, pretendemos nos ater aos ossos fósseis descobertos em Old Crow River, no território Yukon setentrional, por ser um exemplo contemporâneo do tipo de evidência abordado neste capítulo.

Na década de 1970, Richard E. Morlan, do Instituto de Pesquisa Arqueo­lógica do Canadá e do Museu Nacional Canadense do Homem, realizou estudos em ossos modificados provenientes de sítios em Old Crow River. Conforme concluiu Morlan, muitos ossos e chifres mostravam sinais de obra huma­na Intencional levada a cabo antes da fossilização dos citados ossos. Estes, submetidos a transporte fluvial, foram recuperados de uma planície aluvial dos primórdios da chamada Era Glacial de Wisconsin, datando de oitenta mil anos atrás. Isso desafiou e muito as idéias vigentes sobre o povoamento do Novo Mundo.

Porém, em 1984, R. M. Thorson e R. D. Guthrie publicaram um estudo, demonstrando que a ação do gelo fluvial poderia ter provocado as alterações, consideradas fruto de obra humana por Morlan. Mais tarde, Morlan recuou em suas afirmações de que todos os ossos por ele recolhidos haviam sido modificados por obra humana. Admitiu que 30 dos 34 poderiam ter sido marcados por gelo fluvial ou outras causas naturais.

Mesmo assim, ele ainda acreditava que os outros quatro espécimes traziam sinais categóricos de obra humana. Em relatório já publicado, dizia ele: "Os cortes e talhos... são indistinguíveis daqueles feitos por ferramentas de pedra durante o abate e o descarnamento da carcaça de um animal".

Morlan enviou dois dos ossos à dra. Pat Shipman, da Universidade]ohns Hopkins, uma perita em ossos cortados. Shipman examinou as marcas nos ossos, usando um microscópio de expansão à base de elétrons, e comparou-as a mais de mil marcas em osso documentadas. Shipman disse serem inconclu­dentes as marcas em um dos ossos. Mas, na opinião dela, o outro osso trazia uma nítida marca de ferramenta. Morlan observou terem encontrado ferra­mentas de pedra na área de Old Crow River e de regiões altas próximas, mas não em relação direta com os ossos.

Isso quer dizer que não é fácil descartar os ossos de St. Prest e outros como eles. Provas do mesmo tipo ainda são consideradas importantes hoje, e os métodos de análise são quase idênticos àqueles praticados no século XIX. Os cientistas daquela época podem não ter tido microscópios à base de elétrons, mas os microscópios ópticos serviram, e ainda servem, muito bem para esse tipo de trabalho.

 

Deserto Anza-Borrego, Califórnia

 

Outro exemplo recente de ossos incisos como aqueles encontrados em St. Prest é uma descoberta feita por George Miller, curador do Museu do Imperial Valley College em El Centro, Califórnia. Miller, falecido em 1989, relatou que seis ossos de mamute escavados do deserto Anza-Borrego apresentam ranhuras do tipo produzido, por ferramentas de pedra. Datações com isótopo de urânio, realizadas pelo Instituto Americano de Pesquisas Geológicas, indicaram terem os ossos pelo menos trezentos mil anos, e a datação paleomagnética e amostras de cinza vulcânica indicaram uma idade de cerca de 750 mil anos.

Segundo disse certo acadêmico bem conceituado, a afirmação de Miller é "tão razoável quanto o monstro de Loch Ness ou um mamute vivo na Sibéria"; Miller replicou que "essas pessoas se negam a ver sinais do homem aqui porque, se o fizessem, suas carreiras iriam por água abaixo". O tema ossos incisos de mamute do deserto Anza-Borrego foi levantado numa conversa que tivemos com Thomas Deméré, um paleontólogo do Museu de História Natural de San Diego (31 de maio de 1990). Deméré disse ser cético por natureza em relação a afirmações como as feitas por Miller. Ele questionou o profissionalismo com o qual os ossos haviam sido escavados, e salientou o fato de não terem sido encontradas ferramentas de pedra com os fósseis. Além disso, Deméré sugeriu ser bastante improvável que algo a respeito da descoberta viesse a ser publicado em algum jornal científico, porque os peritos que examinam os artigos não os aprovariam. Ficamos sabendo, mais tarde, por intermédio de Julie Parkes, curadora dos espécimes de George Miller, que Deméré jamais havia sequer inspecionado os fósseis ou visitado o sítio da descoberta, muito embora tivesse sido convidado a fazê-Io.

Segundo disse Parks, uma incisão parece continuar de um dos ossos fósseis para outro que estaria localizado ao lado do primeiro quando o esqueleto do mamute estava intacto. Isso é um indício de marca de abate. Provavelmente, as marcas acidentais, resultantes do movimento dos ossos na terra após o esqueleto ter sido quebrado, não continuariam de um osso para o outro dessa maneira.

 

Ossos Incisos de Sítios Italianos

 

J. Desnoyers encontrou espécimes incisos de modo semelhante aos de St. Prest numa coleção de ossos recolhidos no vale do rio Arno (Val d'Arno), na Itália. Os ossos estriados eram dos mesmos tipos de animais encontrados em St. Prest - incluindo Elephas meridionalis e Rhinoceros etruscus. Foram atri­buídos à fase do Plioceno chamada Astiana. Isso resultaria numa data de três a quatro milhões de anos. Porém, é possível que os ossos datassem de 1,3 milhão de anos atrás, quando o Elephas meriodinalis tornou-se extinto na Europa.

Também descobriram ossos estriados em outras partes da Itália. Em 20 de setembro de 1865, no encontro da Sociedade Italiana de Ciências Naturais em Spezzia, o professor Ramorino apresentou ossos de espécies extintas de veados e rinocerontes portando o que ele acreditava serem incisões huma­nas. Esses espécimes foram encontrados em San Giovanni, nas proximidades de Siena, e, tanto quanto os ossos do Val d'Arno, foram tidos como sendo da fase Astiana do Plioceno. Mortillet, insistindo em sua opinião negativa con­vencional, declarou considerar que as marcas foram mais provavelmente fei­tas pelas ferramentas dos operários que extraíram os ossos.

 

Rinocerontes de Billy, França

 

Em 13 de abril de 1868, A. Laussedat informou à Academia Francesa de Ciências que P. Bertrand lhe havia enviado dois fragmentos do maxilar inferior de um rinoceronte. Provinham de uma escavação perto de Billy, França. Um dos fragmentos tinha quatro sulcos bem profundos. Estes, situados na parte inferior do osso, eram mais ou menos paralelos. Segundo Laussedat, as marcas de corte apresentavam-se na transversal como aquelas feitas por uma machadinha numa tora de madeira dura. Desse modo, ele achou que as marcas haviam sido feitas da mesma maneira, isto é, com um instrumento cortante de pedra com suporte para a mão, quando o osso estava fresco. Para Laussedat, aquilo era indício de que os humanos haviam sido contemporâneos do rinoce­ronte fóssil numa época geologicamente remota. A antiguidade de tal desco­berta é revelada pelo fato de o osso maxilar ter sido encontrado numa formação do Mioceno Médio, com cerca de quinze milhões de anos de idade.

Teriam as marcas no osso sido realmente produzidas por seres huma­nos? Mortillet achou que não. Após descartar a idéia de essas marcas terem sido feitas por carnívoros roedores, ele escreveu: "Não passam de impres­sões geológicas". Embora Mortillet possa estar certo, ele não apresentou pro­vas suficientes para justificar seu ponto de vista.

 

 

Lewis R. Binford, antropólogo da Universidade do Novo México, em Albuquerque, é tido, hoje, como grande autoridade em ossos cortados. Em seu livro Bones: ancient men and modern myths, Binford diz: "Marcas pro­duzidas por ferramentas de pedra tendem a ser curtas, ocorrendo em gru­pos de marcas paralelas". As marcas descritas por Laussedat enquadram-se nessa descrição.

 

Colline de Sansan, França

 

As atas de abril de 1868 da Academia Francesa de Ciências contêm o seguinte relato de F. Garrigou e H. Filhol: "Temos em nossas mãos provas suficientes que nos permitem supor a constatação da contemporaneidade de seres humanos e mamíferos do Mioceno". Esse conjunto de provas era uma série de ossos de mamíferos, quebrados de forma aparentemente intencional e oriundos de Sansan, França. Foram especialmente dignos de nota os ossos quebrados do pequeno veado Dicrocerus elegans. Os cientistas modernos consideram as camadas ósseas de Sansan pertencentes ao Mioceno Médio. Dá para avaliar o efeito devastador que a presença de seres humanos há cerca de 15 milhões de anos teria sobre as atuais doutrinas evolucionárias.

Mortillet, como sempre, disse que alguns dos ossos de Sansan quebraram-se por força de incidentes naturais à época da fossilização, talvez por dessecação, ao passo que outros quebraram-se posteriormente em virtude do movimento dos estratos.

Garrigou, contudo, manteve sua convicção de que os ossos de Sansan haviam sido quebrados por humanos, durante a extração de tutano. Ele apresentou suas razões em 1871 no encontro em Bolonha, Itália, do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-históricas. Em primeiro lugar, Garrigou apresentou ao Congresso uma série de ossos recentes com indiscutíveis marcas de abate e quebra. Para efeito de comparação, ele então apresentou ossos do veado pequeno (Dicrocerus elegans) recolhidos em Sansan. As marcações nesses ossos igualavam-se às dos ossos modernos.

Garrigou também mostrou que muitos dos fragmentos ósseos tinham marcas de raspagem bem finas, como aquelas encontradas em ossos com tutano quebrados do Pleistoceno Superior. Segundo Binford, o primeiro passo para extrair o tutano dos ossos é retirar a camada de tecido da superfície óssea, raspando-a com uma ferramenta de pedra.

 

Pikermi, Grécia

 

Em um local chamado Pikermi, perto da planície de Maratona, na Grécia, há um estrato rico em fósseis da era do Mioceno Superior (tortoniana), explorado e descrito por Albert Gaudry, preeminente cientista francês. Durante o encontro de 1872, em Bruxelas, do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-históricas, o barão Von Ducker registrou que os ossos que­brados de Pikermi provavam a existência de humanos no Mioceno. As autoridades modernas situam, ainda hoje, a área de Pikermi no Mioceno Superior, o que conferiria aos ossos a idade de pelo menos cinco milhões de anos.

Foi no Museu de Atenas que Von Ducker examinou vários ossos do sítio de Pikermi pela primeira vez. Ele encontrou 34 partes de maxilar de Hipparion (um extinto cavalo de três dedos) e de antílope, bem como dezenove frag­mentos de tíbia e 22 outros fragmentos de ossos de mamíferos grandes, tais como os rinocerontes. Todos apresentavam vestígios de fraturamento metó­dico com o objetivo de extrair o tutano. Segundo Von Ducker, todos eles traziam "vestígios mais ou menos distintos de golpes de objetos duros". O barão observou, também, centenas de flocos ósseos na mesma situação.

Além disso, Von Ducker observou dúzias de crânios de Hipparion e antí­lope, demonstrando a retirada metódica do maxilar superior a fim de extrair o cérebro. As quinas das fraturas eram muito afiadas, o que em geral pode ser tomado como sinal de quebra por obra do homem, e não quebra por obra de carnívoros roedores ou pressões geológicas.

Mais tarde, Von Ducker viajou para o próprio sítio de Pikermi para con­tinuar suas investigações. No decurso de sua primeira escavação, encontrou dúzias de fragmentos ósseos de Hipparion e antílope, registrando que cerca de um quarto deles apresentava sinais de quebra intencional. A esse respeito, deve-se ter em mente a descoberta de Binford quanto ao fato de os conjuntos de ossos quebrados, no decorrer da extração humana de tutano, terem, cer­ca de 14% a 17% deles, sinais de cortes de impacto. "Eu também encontrei", afirmou Von Ducker, "entre os ossos, uma pedra de tamanho que pudesse ser pega na mão. É pontuda de um lado, estando perfeitamente adaptada para fazer os tipos de marcas observadas nos ossos."

 

Dentes de Tubarão perfurados de Red Crag, Inglaterra

 

Em um encontro do Real Instituto Antropológico da Grã-Bretanha e da Irlanda, realizado em 8 de abril de 1872, Edward Charlesworth, membro da Sociedade Geológica, mostrou muitos espécimes de dentes de tubarão (Carcharodon), cada um com um orificio varando-lhe o centro, como o fa­zem os ilhéus dos Mares do Sul com o objetivo de confeccionar armas e colares. Os dentes foram recolhidos da formação oriental de Red Crag, Ingla­terra, indicando uma idade de aproximadamente 2 a 2,5 milhões de anos.

Charlesworth apresentou argumentos convincentes quanto aos motivos pelos quais animais marinhos como os moluscos perfuradores não poderiam ter feito os orifícios. Durante o debate, um cientista sugeriu a cárie como causa dos orifícios, mas os tubarões não costumam apresentar esse tipo de problema. Outro cientista sugeriu a ação de parasitas, porém, admitiu não ser de seu conhecimento a presença de parasitas em dentes de peixes.

A essa altura, o dr. Collyer opinou a favor da ação humana. A ata do encontro afirmava: "Com o auxílio de uma poderosa lente de aumento, exa­minara cuidadosamente os dentes de tubarão perfurados... As perfurações, segundo seu ponto de vista, foram obra de algum homem". Entre outros, os motivos para sua declaração eram "as condições chanfradas das quinas das perfurações", "a posição central dos orifícios nos dentes" e "as marcas de métodos artificiais empregados para fazer as perfurações".

 

Osso entalhado dos Dardanelos, Turquia

 

Em 1874, Frank Calvert encontrou, numa formação do Mioceno na Tur­lJuia (ao longo dos Dardanelos), um osso de Deinotherium com figuras de animais entalhadas nele. Observou Calvert: "Encontrei, em diversas partes do mesmo penhasco, não muito longe do sítio do osso entalhado, uma lasca de pederneira e alguns ossos de animais, fraturados ao comprido, obviamen­te pela mão do homem, com o objetivo de extrair o tutano, segundo a prática de todas as raças primitivas".

O Deinotherium elefantóide, segundo o parecer de autoridades moder­nas, teria existido desde o Plioceno Superior até o Mioceno Inferior na Euro­pa. Portanto, é bem possível que estivesse correta a datação, feita por Calvert, do sítio dos Dardanelos como sendo do Mioceno. Hoje, diz-se que o Mioceno se estende de 5 a 25 milhões de anos antes do momento presente. Segundo o atual ponto de vista dominante, apenas hominídeos excessivamente simiescos teriam existido durante aquele período. Mesmo uma data do Plioceno Supe­rior, de dois a três milhões de anos para o sítio dos Dardanelos, seria por demais precoce para o tipo de artefatos ali encontrados. Segundo consta, os entalhes do tipo encontrado no osso do Deinotherium são obra de humanos anatomicamente modernos dos últimos quarenta mil anos.

Em Le préhistorique, Mortillet não contestou a idade da formação dos Dardanelos. Ao contrário, segundo comentou ele, a presença simultânea de um osso entalhado, de ossos quebrados intencionalmente e de uma fer­ramenta de lasca de pederneira era quase perfeita demais, perfeita a ponto de levantar dúvidas sobre as descobertas. Isso é bastante extraordinário. No caso dos ossos incisos de St. Prest, Mortillet queixou-se de que no sítio n:\o foram encontradas ferramentas de pedra ou outros sinais de presença humana. Mas nesse caso, com os itens indispensáveis descobertos com o osso entaIhado, Mortillet disse achar o conjunto "perfeito demais", insinuando o embuste de Calvert.

No entanto, David A. Traill, professor de literatura clássica da Universi­dade da Califórnia em Davis, dá a seguinte informação a respeito de Calvert: "Foi ele o mais destacado membro de uma família de expatriados britânicos muito conhecida nos Dardanelos [...]; ele tinha boas noções de geologia e paleontologia". Calvert realizou diversas escavações importantes na região dos Dardanelos, além de ter participado da descoberta de Tróia. Observou Traill: "Tanto quanto tenho podido verificar pelo muito que li de sua correspondência, Calvert foi escrupulosamente veraz".

 

Balaenotus de Monte Aperto, Itália

 

Durante o último quarto do século XIX, apareceram na Itália ossos fós­seis de baleia apresentando marcas de corte. Em 25 de novembro de 1875, G. Capellini, professor de geologia da Universidade de Bolonha, relatou que as marcas haviam sido feitas quando o osso estava fresco, aparentemente com ferramentas de pederneira. Muitos outros cientistas europeus concordaram com a interpretação de Capellini. Os ossos com as citadas marcas eram de

 

 

uma baleia extinta (do gênero Balaenotus) do Plioceno. Alguns dos ossos eram de coleções de museu, ao passo que outros foram escavados pessoalmente por Capellini em formações do Plioceno ao redor de Siena, em locais como Poggiarone.

As marcas de corte nos ossos foram encontradas em lugares apropriados para operações de abate, tais como as superfícies externas das costelas. Em um esqueleto da baleia quase completo escavado por Capellini, as marcas de corte só foram encontradas em ossos de um lado da baleia. "Estou convencido de que o animal encalhou na areia pelo lado esquerdo, tendo o lado direito ficado, desse modo, exposto ao ataque direto de humanos, como o demons­tram os lugares em que se encontram as marcas nos ossos", disse Capellini. O fato de apenas os ossos de um dos lados da baleia terem sido marcados tende a descartar qualquer explicação puramente geológica, bem como a ação de tubarões no fundo do mar. Além disso, as marcas de corte nos ossos fósseis de baleia assemelhavam-se exatamente àquelas encontradas em ossos de ba­leias na atualidade.

No Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-históri­cas, Capellini relatou o seguinte: "Próximo aos restos do Balaenotus de Poggiarone, recolhi algumas lâminas de pederneira, perdidas nos próprios depósitos litorâneos". Acrescentou ele: "Com aquelas mesmas ferramentas de pederneira pude reproduzir, em ossos frescos de cetáceos, as mesmíssimas marcas encontradas nos ossos fósseis de baleia". Ele também observou que haviam encontrado restos esqueletais humanos na mesma parte da Itália, em Savona (veja Capítulo 7).

Após o relato de Capellini, os membros do Congresso realizaram um debate. Alguns, tais como Sir John Evans, fizeram objeções. Outros, tais como Paul Broca, secretário-geral da Sociedade Antropológica de Paris, concordaram com Capellini quanto ao fato de que as marcas nos ossos de baleia foram feitas por humanos. Em particular, Broca descartou a hipótese de que as marcas foram feitas por tubarões e disse que apresentavam todo sinal de terem sido feitas por uma lâmina afiada. Broca foi uma das principais autoridades em fisiologia óssea de sua época.

Armand de Quatrefages estava entre os cientistas favoráveis à teoria de que os ossos de Balaenotus de Monte Aperto haviam sido cortados por ins­trumentos afiados manuseados pelo homem. Em 1884, ele escreveu: "Por mais que tentemos, usando diversos métodos e instrumentos de outras maté­rias-primas, não conseguiremos duplicar as marcas. Apenas um afiado instru­mento de pederneira, movido em certo ângulo e com bastante pressão, poderia fazê-Io" .

O assunto foi bem resumido por S. Laing, que escreveu o seguinte em 1893: "Os cortes apresentam curvas regulares, e às vezes quase semicircula­res, que apenas o golpe da mão poderia ter provocado, e invariavelmente mostram uma superfície de corte limpa no lado externo ou convexo, contra o qual se aplicou a pressão de uma lâmina afiada, com uma superfície irregu­lar ou esmerilhada na parte interna do corte. O exame microscópico dos cortes confirma essa conclusão, sem deixar dúvida de que tenham sido feitos por um instrumento como uma faca de pedra, seguro de forma oblíqua e pressionado contra o osso ainda em estado fresco, com força considerável ­- da forma que um selvagem faria ao retalhar a carne de uma baleia encalhada. Podemos fazer, hoje, cortes exatamente iguais em ossos frescos usando essas facas de pedra, mas não de alguma outra forma conhecida ou concebível. Negar a existência do homem terciário, portanto, mais parece preconceito obstinado do que ceticismo científico, se se depender apenas desse caso específico".

Binford, uma autoridade moderna, declarou: "É pouco provável que um observador de osso modificado confundisse marcas de corte, produzidas durante o desmembramento ou o descarnamento por obra do homem e seus instrumentos, com a ação de animais".

 

 

Mas os dentes de tubarões (Figura 2.1) são mais afiados que os de carnívoros mamíferos terrestres, tais como os lobos, e poderiam produzir marcas em osso mais parecidas com aquelas que poderiam ser feitas com instrumentos de corte. Após examinarmos ossos fósseis de baleia na coleção de paleontologia do Museu de História Natural de San Diego, concluímos que os dentes de tubarão podem de fato fazer marcas bem parecidas com aquelas que poderiam ser feitas com instrumentos.

 

 

Os ossos que vimos eram de uma espécie de baleia pequena com barbatana do Plioceno. Examinamos os cortes no osso através de uma lente de aumento. Vimos estriamentos longitudinais e uniformemente paralelos em ambas as superfícies dos cortes. Essas são exatamente o tipo de mar­cas que se esperaria ver feitas pela borda dentada de um dente de tuba­rão. Também vimos marcas de ras­pagem no osso (Figura 2.2). Elas poderiam ter sido produzidas por um golpe oblíquo, com a borda do dente a raspar a superfície do osso em vez de cortá-Ia.

 

 

Sabendo-se disso, seria possível reexaminar os ossos de baleia do Plioceno encontrados na Itália e chegar-se a algumas conclusões bem de­finidas sobre se as marcas nos ossos foram ou não feitas por dentes de tu­barão. Padrões de estrias e sulcos paralelos nas superfícies dos fósseis seriam um sinal quase certo da ação predatória e necrófaga dos tubarões. E se o exame minucioso de cortes profun­dos em forma de V também revelasse estriamentos longitudinais e uniformemente paralelos, isso deveria ser considerado como prova de que os dentes de tubarões fizeram os cortes. Não seria de esperar que as superfí­cies das marcas feitas por lâminas de pedra revelassem estriamentos unifor­memente espaçados.

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